Assédio moral ou sexual. O famoso teste do sofá

Assédio moral ou sexual. O famoso teste do sofá

Caro Urso, passei por uma situação muito constrangedora e tenho duas perguntas a respeito. Fiz um contato profissional interessante, um cara que parecia se interessar pelo meu trabalho. Disse que podia me apresentar pessoas e me indicar para freelances. Tudo corria muito bem, até que ele começou a dar umas investidas sexuais. Eu falei com educação que não estava afim e ele falou, com todas as letras, que se eu quisesse que ele me ajudasse teria que rolar sexo. Na hora eu fiquei chocada e não sabia nem o que responder, não existiam palavras pra expressar a minha indignação. Diante da minha recusa ele respondeu algo do tipo: você devia aproveitar enquanto ainda é gostosa, daqui a poucos anos vai estar toda velha e caída e ninguém vai te querer. Não falei mais com ele. Dias depois recebi um e-mail com o título auto-retrato. Quando abri, era uma foto do pênis dele, me senti muito humilhada. Foi um trauma, passei alguns meses sem me interessar por homem nenhum por conta dessa história. As minhas perguntas são: 1. O que leva um cara a fazer isso, a achar que pode tratar uma mulher dessa maneira? 2. Como reagir em uma hora dessas pra fazer o cretino se sentir tão mal quanto eu me senti? Abraço. Ana
Olá Ana, não sei se o restante dos leitores tem a mesma impressão que eu, mas quando me deparo com uma situação como essa só posso pensar que o mundo realmente é um lugar de gente condenada. Ainda pregam que se não nos comportarmos, iremos direto para o inferno quando morremos, alguns sem passagem pelo purgatório, o que deve ser o meu caso. Gente como esse cidadão, se é que posso chamá-lo de gente, me faz crer que o inferno é aqui! Eu achava que o teste do sofá tivesse virado lenda urbana, me enganei.

O assédio sexual é uma das práticas mais covardes que conheço, ficando atrás da tortura, sequestro, abuso de incapazes e estupro. Até para homicídio eu posso dar desconto, afinal, existe dentro dele a possibilidade da legítima defesa, mas nunca ouvi alguém falar que cometeu o crime estupro ou os outros que citei porque se sentiu acuado. O agressor que usa de poder para corromper moral ou sexualmente alguém, não deveria andar na rua sem uma plaquinha escrita “Cuzão” pendurada na testa.

Boa aparência desejável

Uma coisa que para mim nunca ficou clara foi o que caracteriza o assédio sexual, até porque hoje em dia muito se fala em assédio moral. Durante uma época era comum lermos anúncios de vagas com algo descrito como “boa aparência desejável”. Mas, se pensarmos por um ponto de vista, por que alguém deveria ter sua contratação subjugada ao critério de beleza do entrevistador? Que raio de sentido faz isso? Se eu fosse contratado pela beleza a essa hora estaria pedindo esmola ou blogando para sobreviver.

É extremamente complicado definir o limite entre o desejável e o repulsivo nesses casos, posso apostar uma tubaína que boa parte das mulheres gostaria de ser assediada no trabalho se seu chefe fosse o galã do momento.  Quer dizer que o assédio sexual só existe quando há ausência de interesse de uma parte? Não parece muito interpretativo para você? Para muitos homens um sorriso quer dizer um convite, para outros a falta de uma negativa é sinal de aprovação.

Empresas feudais e seus preconceitos

Isso que você passou, cara Ana, nada mais é do que uma atitude deplorável de um ser desprezível que trabalha em uma empresa pouco profissional. Não me venha dizer que por ser uma grande empresa ela é profissional, porque uma coisa nada tem a ver com outra. Conheço diversas empresas que são enormes, mas que não se libertaram de práticas quase feudais e com estrutura diretiva familiar.

Uma das maiores fabricantes de motos do mundo, por exemplo, não admite diretores que não sejam japoneses, quanto mais uma mulher em sua diretoria. O curioso é que os caras entram no Brasil, estabelecem fábricas, vendem para brasileiros e não permitem que os diretores não sejam japoneses. Deve ter alguma regra para bilau pequeno, só pode! Assim a galera pode fazer uma suruba sem se sentir mal. Já pensou um bando de nipônicos com o bilau de fora do lado de alguém mais avantajado? Os caras se matam ou broxam!

Não adianta as leitoras ficarem com raiva dessa empresa, pois isso acontece inversamente em outras, como em uma grande empresa fabricante de cosméticos onde a diretoria é quase que exclusivamente composta por mulheres. Não seria um tipo de discriminação também?

Isso é fruto de um pensamento retrógado, algo que em empresas modernas não existe mais e nem tem lugar. Calma, não é que as empresas ficaram boazinhas, isso não existe.

O amadurecimento corporativo e capitalista dará fim ao assédio

O que acontece é que as medições de qualidade do funcionário em corporações profissionais transcendem a beleza ou a orientação sexual do individuo. O sujeito é analisado por produtividade e ponto final, assim friamente. Essa conduta impede que aconteçam exageros, mas, em contrapartida, pune os funcionários vagabundos.

Esse seu caso específico, a promessa de um futuro promissor em troca de favores sexuais mostra que, apesar de decadente, alguns mercados ainda permitem o famoso teste do sofá. Se olharmos somente o presente, podemos ter uma visão negativa, mas se olharmos para o quão frequente isso foi no passado podemos imaginar que essa prática deixará de existir no futuro.

É uma questão de tempo e de comportamento. Com certeza esse filhote de rapariga deve ter se dado muito bem agindo dessa forma ou então você é muito gostosa e ele resolveu arriscar a carreira dele por uma noite de prazer. Pode ser que ambas afirmações estejam certas, o que não justifica o comportamento do tarado da Polaroid.

Artifícios “femininos”

Existem mulheres que se prestam a esse tipo de situação? É claro que existem, não haveria demanda se não fosse assim. É por isso que tenho bronca das biscates e respeito as putas, pelo menos elas tem coragem de admitir que pretendem ganhar dinheiro usando o corpo.

Durante meu começo de carreira fiquei para trás em muita seleção porque sempre aparecia uma gostosinha para levar a vaga. Entre um par de peitos e eu, nem preciso dizer quem o entrevistador escolhia. Muito disso é fruto do mercado que escolhi, a publicidade. Se eu tivesse escolhido ser estivador fatalmente isso não aconteceria.

Impunidade e o medo da exposição

Outro fator que leva o covarde a agir assim é a quase certeza de impunidade. Raramente um caso como esse seria levado aos extremos, pois as pessoas ficam com medo de se expor e depois sofrerem retaliações. Não sejamos hipócritas, haverá retaliações, é claro. Experimente mandar uma carta para o RH da empresa que empregou esse retardado para ver o que acontece, provavelmente ele será repreendido e depois começará uma cruzada para deturpar o que você escreveu.

Quem sairá perdendo? Inicialmente você, mas conforme mais reclamações aconteçam a imagem dele também sairá arranhada. O mais complicado é decidir se você tem vocação para mártir.

Eu tenho, mas não desejo isso para ninguém, minha vida não é mais fácil por conta disso, muito pelo contrário, sou obrigado a trabalhar mais que os outros porque não dou tapinha das costas de contratantes e não aceito ficar quieto quando sofro algum tipo de injustiça.

Não estou defendendo que você fique quieta, muito pelo contrário, por mim, esse cidadão deveria ser exposto, mas entendo se você não quiser levar o caso a público dando nome aos bois. É o famoso “passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.

O que nos leva a sua questão, como deixar o cidadão em uma situação onde ele se sinta humilhado? Sinto lhe dizer, mas isso não será possível. Um cidadão como esse tem traços de psicopatia, portanto nada deverá lhe ser tão intragável que lhe fará sentir-se mal.

O que fazer diante da proposta

O que fazer no momento em que a coisa toda acontece? Tudo vai depender de como a proposta foi feita, uma coisa é o cara te falar isso enquanto te levou para jantar em um restaurante a luz de velas, sinto muito, mas você se colocou numa posição desfavorável, outra bem diferente é a proposta ser feita diretamente, cara a cara em um ambiente nada propício, por telefone ou outro tipo de canal, como msn.

Eu tenho vocação para o sadismo, com certeza se fosse interpelado pessoalmente mandaria o desgraçado colocar para fora e tiraria um sarro, mas nem todo mundo tem a frieza que possuo. Acredito que um sujeito que tem esse comportamento deve ter um ego muito exacerbado, então a melhor coisa a fazer é cortar relações e passar a ignorá-lo.

Eu pegaria o email do cara e enviaria para órgãos de proteção a mulher, que se encarregariam do resto. Teria devolvido o e-mail dele com um puxão de orelha como “sinto muito, mas é impossível que alguém normal lhe tenha afeto, definitivamente a presença de um órgão sexual nada tem a ver com o caráter de uma pessoa”. Saia da posição de vítima e o coloque na que ele merece, a de um babaca.

P.a.U. nele! Até mais!

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