Como Rita Lee e a mídia fizeram a linguiça morder o cachorro

Há alguns dias mais um fato inusitado me chamou a atenção, em um show de música, o policiamento presente decide intervir no decorrer normal quando alguém na plateia tem a brilhante ideia de fumar um baseado. Até aí, tudo bem… Tudo bem se a dona do show não fosse a roqueira mais antiga do país, Rita Lee. Ao perceber a abordagem dos policiais ao “usuário”, ela resolve ajudar o pobre rapaz, primeiro sendo dócil e após não ver suas palavras subverterem a lei, toma a decisão de ofender os agentes conforme o vídeo abaixo mostra.


Rita Lee discute com policiais em seu último… por pergunteaourso

O que descrevi no parágrafo anterior é um relato baseado em fatos noticiados pela imprensa. Após o show, Rita foi encaminhada a uma delegacia de polícia para ser autuada por desacato, creio eu porque desafiou os policiais a efetuar sua prisão e também pelos termos “cachorros” e “filhos da puta”.

Na delegacia aparece a figura de Heloisa Helena, aquela mesma que tentou ser presidente da república e agora é vereadora no nordeste brasileiro. Não, não a confunda com Marina Silva, apesar de ambas dissidentes do PT, são pessoas bem diferentes.

Resumo da ópera do show de rock

Em um show a polícia aborda, de forma truculenta ou não (não existem gravações deste momento), um fã que portava substância entorpecente ilícita, supostamente para seu uso. Polícia que estava lá para garantir a segurança da massa, no caso, dezenas de milhares de pessoas. A artista, responsável pelo entretenimento, decide que no momento do show a atividade policial não seria bem vinda e estimula o público a agredir verbalmente e moralmente os policiais.

Me desculpe a questão, mas que raio de sentido faz não levar a pessoa para a delegacia? Qual a atitude que se esperava da polícia? Faria algum sentido a polícia ver um ato ilícito (portar/usar maconha) e não tomar alguma providência?

É por isso que digo que a linguiça está mordendo o cachorro.

Drogas

A posse de drogas, substância entorpecente ilícita, é crime. Não há pena de prisão ao usuário, mas existem medidas punitivas sim, como serviços comunitários e a conversão em doação de cestas básicas para população em situação de risco social. Sobre descriminalizar já escrevi em outro post.

Desacato

Pare de ler esse texto agora, procure um policial mais próximo de você e que esteja fazendo uma abordagem para revista de “suspeitos”. Chame-o de cachorro ou “filho da puta” porque não concorda com a forma da abordagem. Acredito eu que, em poucos segundos, os suspeitos serão liberados e você será preso por desacato.  Merecidamente.

Pense no que seria de você ao pedir um cigarro de maconha para fumar na frente de qualquer tipo de policial e gritar que ele deveria te prender se tivesse coragem. Antes que você pronunciasse a palavra “advogado”, já estaria na mesa de um delegado.

Ficam as dúvidas: por que Rita Lee se acha tão acima da lei e diferente de você? Quem garantiu a cantora o direito de expressar sua opinião ofendendo a outra pessoa?

Abuso da força policial

Claro que em algum momento os policiais presentes podem ter abusado da autoridade na condução do problema. Porém, em momento algum, por reação instintiva ou racional, nenhuma agressão por qualquer uma das partes é aceitável e cabida.

Se Rita Lee quisesse realmente proteger o seu público ou qualquer coisa do gênero, bastaria parar o show por um minuto e alertar aos policiais que toda ação deles seria gravada pela sua produção e depois encaminhada ao ministério público para averiguação sobre abuso. Pronto! Protegeu e não desacatou, simples assim.

Se houvesse a intenção dos policiais em extrapolar, essa seria reduzida e o show continuaria. Sinceramente achei a polícia muito contida ao esperar o espetáculo acabar para levar a cantora para depor.

Reação de colegas e políticos

O governador de Sergipe entende que a polícia fez o certo. A Heloísa Helena achou que houve exagero. Parte da mídia se calou e outra parte defendeu Rita Lee.

O que me preocupa é a hipocrisia e a falta de embasamento envolvida no caso. Veja um tweet de Marcelo Tas:

Tweet do Marcelo Tas

Notem que o apresentador do CQC defende, ironicamente, que algumas coisas pertençam ao Rock. O fato curioso é que quando seu colega, Rafinha Bastos, utilizou de uma piada de humor negro em seu programa, o mesmo foi “convidado” a se retirar sem que Tas se manifestasse favoravelmente a ele. Dois pesos e duas medidas.

A mensagem de permissividade passada por outros representantes da classe artística pode ser um tiro no pé. Polícia serve para promover a ordem e proteger os cidadãos. Não serve para arbitrar sobre a gravidade dos fatos, isso quem faz é o judiciário. Um magistrado analisa tudo o que foi documentado e, com embasamento jurídico, determina uma pena.

“Eu vivi a ditadura”

Muito bem, em determinado momento a cantora resolve comparar a polícia militar com o governo militar instituído em 1964. Muitos viveram essa época, mas poucos se prestaram a apurar os ocorridos. O que todo sabe ou pensa saber é que o governo militar era um elemento que punia a liberdade individual. Essa informação está incompleta.

Os militares promoveram o golpe por medo de que o comunismo tomasse espaço no Brasil, visto que, naquela época era uma tendência nos países latinos. De 1964 a 1968 não havia uma repressão exagerada, o famoso AI-5, ato que cerceou os direitos individuais só foi decretado em dezembro de 68. Até aquele momento os projetos ainda eram encaminhados ao Congresso Nacional. Acho que vale ler na íntegra, clique aqui.

O AI-5 nada mais foi do que uma reação a um ano de ataques feitos por grupos financiados por governos comunistas. É fato conhecido que boa parte dos “militantes” receberam dinheiro, armas e treinamento em Cuba para promover o comunismo por aqui.

Para você ter uma ideia da diferença entre um governo comunista e um militar, no que se refere a repressão, se aplicarmos a mesma proporção de “execuções” de outros países que adotaram o comunismo, ao invés de 500 mortos aproximadamente, teríamos: 18 mil seguindo Cuba, 80 mil seguindo a política da China e algo perto 22 milhões se acharmos que o Camboja é o exemplo a ser seguido.

Não estou defendendo a ditadura, muito menos seus métodos não-ortodoxos de repressão, mas temos que parar com essa hipocrisia de achar que quem lutou contra ela, lutou em nosso favor.

Desdobramentos lógicos e práticos

O que muito se comentou é que a força policial presente deveria “relaxar” o exercício de seu dever, afinal, seria o último show de uma cantora conhecida – coisa que duvido muito, com todo respeito a Aracajú.

Já escrevi isso em outro post e cada vez tenho mais certeza: a sociedade quer uma polícia honesta, mas não está pronta para ela.

Ao mesmo tempo que exigimos o cumprimento das leis para com os “bandidos”, aqueles que não seguem as leis, pedimos o “relaxamento” para os “transgressores”, aqueles que não seguem as leis, mas não chamamos de “bandidos” porque são figuras públicas ou financeiramente abastados.

Pode ser que eu tenha aprendido errado as lições deixadas por meu pai, me recordo de uma em especial: “pau que bate em Chico, não pode deixar de bater em Francisco”.

Um ou outro leitor poderá argumentar que não podemos colocar na mesma balança quem comete um homicídio junto com quem fumou um baseado. Errou quem pensou nisso e errou feio. A balança é a mesma para todos, sem distinção, ao menos deveria ser, independente de quem é o sujeito, deverá ser julgado por quem compete.

Até chegar ao momento da averiguação dos fatos, atribuição da pena e da aplicação da mesma, cabe a polícia conduzir o processo. Esta o deve fazer com educação e legitimidade. Quando isso não ocorre deve ser responsabilizada.

Perceba que, se insistirmos em “afrouxar” o processo para os “transgressores”, por qualquer motivo que seja, estamos dando um tiro no pé, pois a mesma regra servirá para indivíduos com maior periculosidade.

Novamente algum leitor ponderará que a polícia tem que ver a situação e promover ajustes na conduta. Errado de novo. A força policial não tem e nem deveria ter o direito de “julgar” ocorridos. É assim que nascem os grupos de extermínio, servindo a sociedade. O problema é que em uma briga de trânsito comum, o mesmo “bem feitor” que mata bandidos pode sacar uma arma e matar um pai de família barbeiro.

O mesmo policial que não leva o maconheiro para a delegacia pode deixar de efetuar a proteção nas ruas enquanto toma uma “gelada” em algum boteco onde faz bico. Qual o problema, policial ganha pouco, não é? Enquanto isso você tem sua casa assaltada e recebe a polícia 1h depois que os bandidos já foram embora.

Pense a respeito.

Até mais.

Comentários

comentários



Comentários

Powered by Facebook Comments

Se cadastre para receber as atualizações por e-mail

* indicates required



/

( dd / mm )


Sexo e relacionamento – Frequência dos e-mails

Carreira e cotidiano – Frequência dos e-mails

Comportamento – Frequência dos e-mails

Educação e saúde – Frequência dos e-mails

Política e religião – Frequência dos e-mails

Comunicados oficiais – Frequência dos e-mails

Presença Online – Frequência dos e-mails


Comentários

comentários