Estupro coletivo, o fundo do poço conseguiu ser ultrapassado

Estupro coletivo, o fundo do poço conseguiu ser ultrapassado

Olá a todos e todas, parei meu período de hibernação carnavalesca para escrever sobre uma notícia que li durante a semana e que me chamou a atenção. Em uma cidade do nordeste um grupo de amigos teve a “brilhante” ideia de estuprar mulheres de sua convivência através da simulação de um assalto durante uma festa de aniversário. A motivação não poderia ser mais ridícula: um presente para o aniversariante.

A selvageria ardilosa impressa nesse caso me fez pensar de onde é que isso pode ter surgido e quais impactos serão sentidos pela sociedade nos próximos anos.

Ao tomar conhecimento do crime fiz uma associação direta com outro estupro, em Campinas-SP. Uma estudante universitária foi estuprada por colegas durante uma festa em 2005, enquanto estava desacordada. Dois estudantes foram condenados, outros escaparam por falta de provas, todos alegaram que as relações aconteceram com o consentimento da vítima.

Outras situações similares pipocam Brasil afora, geralmente, seguindo a mesma lógica, agressores que utilizam da confiança das vítimas para abusar sexualmente das mesmas após algum tipo de “anestesia”.

Sem medo da punição

O meu primeiro raciocínio para justificar as atrocidades cometidas foi que a falta de crença na punição fez com que as agressões acontecessem.

Em um exercício variado da teoria dos jogos, um estudo matemático idealizado durante a guerra fria para ajudar o governo estadunidense a identificar possíveis reações dos russos, detectou que o ser humano, quando diante da ausência de vigia e da possibilidade de impunidade, incorria em querer levar vantagem sobre o próximo.

Seria uma justificativa plausível, o sujeito sabendo que não seria pego, e se fosse, não seria punido, aproveita da situação e comete o crime. Plausível, com certeza. Simplista demais, sem sombra de dúvidas.

Seria como afirmar que qualquer um tem eu seu DNA a necessidade de usar o seu lado demoníaco e que só não o faz normalmente porque está aguardando o momento certo.

Doença mental ou distúrbio psicológico

A outra possibilidade, nem tão simplista, mas muito confortável é creditar esse comportamento socialmente deturpado a um grupo que sofre de algum tipo de distúrbio mental.

Resumindo: o sujeito estupra ou violenta alguém porque é doente. Uma teoria razoavelmente aceitável, visto que ter prazer enquanto proporciona terror não parece ser um fetiche comum. Quando o fetiche vira doença e o indivíduo não consegue mais ter prazer sem determinada circunstância, damos o nome de parafilia.

Acredito realmente que existam pessoas que têm a necessidade de ter relações de forma forçada para obtenção de prazer, contudo, não vejo como juntar um grupo de três ou mais pessoas com essa característica, algo como “estupradores anônimos”, e que se reúnam com o intuito de compartilhar experiências e planejar vítimas. Me parece fantasioso demais contar com pessoas que tem o mesmo distúrbio de comportamento consigam ter tamanha organização.

No caso nordestino, por exemplo, dez homens envolvidos. Será que todos são doentes ou não temem a punição por seus atos?

O problema real: a omissão nos valores

Ao refletir um pouco mais comecei a entender melhor o que pode estar acontecendo. Costumo dizer que se o problema acontece em determinadas circunstâncias o problema está no indivíduo, quando acontecem em diversas, o problema está no sistema.

É mais ou menos como a corrupção na política ou na polícia, se somente alguns deputados ou policiais agem fora da lei, devemos resolver os casos individualmente, se boa parte deles tem o mesmo desvio, já é caso de uma intervenção no sistema.

Esses estupros ao longo dos anos não me parecem mais casos individuais, um doente qualquer que faz uma série de vítimas ou um desequilibrado que não teme a justiça.

A questão me parece mais relacionada a perda de valores fundamentais no que diz respeito ao relacionamento com outros seres humanos. Vou desenhar para os mais lentos: estamos perdendo a característica de humanidade.

Obviamente que alguém irá discordar da minha teoria, afinal, não são raros os casos onde 30 mil pessoas se reúnem para realizar algo engrandecedor, prova disso é o Carnaval! Por favor, entenda a ironia…

Quando é que, nesse país, se mobiliza tanta gente para um propósito humano? Algo como um mutirão para construção de casas populares, campanha contra o abuso sexual infantil, erradicação de doenças ou qualquer outra atitude em prol dos outros?

Vejo a marcha para Jesus, a parada gay e outras manifestações segmentadas, mas nada que promova algo construtivo, apenas pregação de tolerância. Falar que as pessoas precisam de comida, de saúde e de educação é moleza, quero ver tirar a bunda da cadeira e ir lá coletar e distribuir alimentos, ir na porta do governo do estado ou federal e exigir médicos melhores, se prestar a levar conhecimento aos que estão em áreas de risco social.

É mais fácil se acomodar atrás de dezenas de desculpas enlatadas e vestir a merda de uma camiseta para mostrar repulsa, enquanto dá uma voltinha no quarteirão para a imprensa tirar fotos.

É essa falta de consciência que está promovendo esse desapego à humanidade, dezenas de “minorias” interessadas no bem único e camisetas de protesto que viram pano de chão ao invés de virar atitudes propositivas e de alcance real.

A solução começa em casa

Boa parte de quem se indigna sequer faz o mínimo, que é fazer um trabalho de conscientização em seu lar, quanto mais tentar ir além do seu portão.

Quando eu era criança fui impactado por um número muito menor de informações do que uma criança de hoje é, mesmo assim, fora o que o mundo me mostrava de ruim, tinha meu pai que me mostrava bons exemplos e valores que orientaram a minha vida.

Ao andar em locais públicos noto uma certa displicência nos pais em passar esses valores e mostrar, mesmo que equivocadamente, a diferença entre o “certo” e o “errado”. Escrevi dessa forma porque sei que esses conceitos variam muito de acordo com características regionais, temporais e culturais. Pode ser que alguém cresça com um padrão e depois deseje mudar, mas pelo menos, cresceu com um norte.

Hoje noto menos direcionamento e mais informações, algo que, com o intuito de melhorar a qualidade de vida, está por atrapalhar o convívio. Somos tão estimulados a ser felizes, prezando pelo nosso lado individual, que estamos deixando a coletividade de lado, a noção de que juntos somos mais fortes.

Prova disso é essa onda de afirmação que a juventude está mostrando. Todo mundo quer ser diferente, reconhecido por ser alguém exclusivo, único e para isso quer mostrar que não segue padrões. Isso é um paradoxo dos mais estúpidos, ao ter um grupo que não segue padrões, estabelece-se uma nova padronização!

Espero que você tenha entendido o que quero dizer, mesmo assim vou resumir: pare de dourar a pílula, de se omitir, de tapar o sol com a peneira e de achar que não há nada demais em deixar a televisão educar os jovens. Passe os valores herdados adiante e cobre responsabilidade do futuro de sua geração. Evite novos estupros e outros problemas agindo na fonte deles ao invés de ser mais um papagaio de pirata.

Discorde de mim, concorde, mas faça algo, um bom começo é agir dentro da sua casa, falando sobre os problemas e passando valores adiante. Até mais!

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