Não seja mais um babaca

Olá! O objetivo do que escrevo hoje não está em entreter você com uma resposta carregada de ironia para algum desavisado que caiu aqui. Tenho outra meta, a de manifestar meu repúdio publicamente na tentativa de alertar os leitores habituais ou eventuais deste espaço que escrevo para um problema muito sério que vem tomando conta de nossas vidas, a intolerância.

Se você for um pai presente seus filhos serão heterossexuais, afirma Bolsonaro

Há pouco tempo, o deputado federal carioca, Jair Bolsonaro (PP), em um programa de televisão, deu algumas declarações controversas, como por exemplo, acreditar que o comportamento homossexual é fruto de maus costumes e que seus filhos são heterossexuais porque ele é um pai presente. Também, em resposta a Preta Gil, disse que não discutiria promiscuidade com ela referindo-se a possibilidade de um filho se apaixonar por uma mulher negra.

Assim que as declarações foram ao ar, a mídia social (blogs, microblogs, redes sociais e afins) foi inundada de reclamações de todos os tipos. Bolsonaro teve uma infelicidade muito grande ao abrir a boca, porém, não o vejo promovendo o preconceito.

Em meu entender existe uma grande diferença em se dizer um ponto de vista, por mais estúpido que seja, e promover o ódio.

Apesar do deputado ter dado uma aula de ignorância quanto ao homossexualismo, não entrou em uma cruzada para banir homossexuais da gestão pública, restringir seu acesso a qualquer local que seja ou pleitear carga tributária maior para estes.

Preciso ser mais claro, não estou defendendo as bobagens que Bolsonaro disse, não vejo lógica em coisa alguma, mas precisamos tolerar sua estupidez, caso contrário estaremos, de forma intolerante, querendo combater a intolerância.

Paulista também sofre preconceito. Tiririca foi a pedra.

Lembro-me quando Tiririca foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo. Choveram piadas de moradores de outros estados, em sua maioria, questionando a “inteligência” do povo paulista por empossar um deputado tão letrado quanto bonito.

Outra idiotice sem limite. Aqui em São Paulo existem 20 milhões de eleitores, Tiririca recebeu cerca de 1 milhão de votos. Mesmo que votar no nobre deputado fosse sinal de burrice, apenas um vinte avos do povo paulista poderia ser considerado burro, ou seja 5%. Estamos no lucro!

As mulheres do sul são mais bonitas, segundo Ed Motta

Também me recordo do caso Ed Motta e suas declarações sobre o sul do Brasil ser um lugar civilizado, com “frutas vermelhas, clima frio, gente bonita”, também falou que mulher feia teria que ter talento e fez uma comparação com Paula Toller onde a chamava de “linda, burra e sem talento”.

Ed Motta foi atacado por uma massa enfurecida na web por publicar sua opinião. Mas, chamo a atenção para um detalhe, quando publicou o fez em sua página no Facebook, em seu próprio perfil. Sinceramente, acho que a única pessoa que poderia se sentir ofendida é a própria Paula Toller, mesmo assim, ainda é a opinião dele.

Quanto as mulheres bonitas, discordo do músico, há mulher bonita em todo lugar deste país, contudo, não vejo problema em ele gostar mais das moças do sul, direito dele, eu também tenho minhas preferências. Sobre a beleza do próprio, nada a declarar.

A “gente diferenciada” deu show em Higienópolis

Depois teve aquele caso de Higienópolis onde a associação de moradores fez um abaixo-assinado pedindo que o governo estadual mudasse o local do metrô para próximo à FAAP, uma universidade próxima ao local original, dessa forma serviria aos estudantes e aos espectadores que assistem jogos ou shows no estádio do Pacaembu.

Enquanto a discussão acontecia um veículo de comunicação resolveu entrevistar moradores. Eis que surge uma moradora, psicóloga, que é contra o metrô no local onde foi planejado. Ela alegou que o metrô traria com ele “drogados, mendigos, uma gente diferenciada” para os arredores da estação.

Pronto! Isso foi o estopim para que uma galera, inflamada por manchetes na mídia, buscasse mostrar que não eram intolerantes aos diferentes através de um “churrasco” na região na forma de protesto. A psicóloga nega o termo “gente diferenciada” e diz que isso deve ter sido coisa da jornalista que a entrevistou.

Tudo por conta de uma declaração idiota, daqueles que todos fazemos em qualquer bar ou roda de amigos. Eu pergunto a quem lê esse blog: o que ficou de construtivo do churrasco? Onde isso serviu para diminuir o preconceito? Será que dar caráter preconceituoso a toda população de Higienópolis, bairro conhecido por ser reduto judeu e com residências de alto padrão, foi uma boa ideia?

Mayara Petruso e seu pedido para que afogássemos um nordestino

Falando em muito farinha para pouco angu, teve aquele caso da estudante de direito que, ao terminar o processo eleitoral de 2010, escreveu, em seu twitter, que os nordestinos não são gente e que deveríamos fazer um favor à São Paulo, matando um nordestino afogado.

Achei a declaração de péssimo tom, agressiva, cretina, infeliz e ignorante. Atribuir a vitória de Dilma Roussef aos nordestinos é de uma simplicidade de pensamento absurda, de dar medo. O mérito da campanha vitoriosa do PT deve-se a um trabalho bem feito a longo prazo com alianças políticas e um ótimo índice de aprovação do antigo presidente.

O que a grande massa fez? Perseguiu a estudante como se ela fosse a fundadora de alguma seita criada com o intuito de matar nordestinos. Sinceramente, diante das declarações dela, acho que nem síndica ela conseguiria ser, mas tudo bem, vamos lá malhar o novo “Judas”.

Acho que dar notoriedade a esse caso mais trouxe desiquilíbrio do que ajudou. Pegou-se o pensamento de uma pessoa qualquer, no meio de uma multidão de declarações e deu-se como um ato de revolta organizado. Gente, essa garota é só uma boçal, mais nada!

Como combater esse tipo de situação? Na idade média, alguns reis, os completamente idiotas, matavam os mensageiros que traziam notícias ruins. O que a massa fez foi a mesma coisa.

A melhor decisão tomada foi mostrar a essa moça o quão “cagões” os perseguidores são ao execrar a pessoa ao invés de tentar trazer ela para uma realidade que está ignorando. Se eu fosse de algum centro de cultura nordestina, teria feito um convite para que ela conhecesse as tradições e a influência do povo nordestino na cultura e no desenvolvimento paulista.

Caso tivesse sido pessoalmente ofendido nessa situação, seria capaz de fazer um material de distribuição gratuita para reduzir a intolerância, mostrando que o país é um só. Mas isso dá trabalho, malhar o “Judas” é muito mais fácil e cômodo!

Rafinha Bastos e o limite entre o engraçado e o mau gosto

Agora a bola da vez é o Rafinha Bastos. Depois de algumas piadas fora de tom, foi suspenso do programa em que trabalhava após uma piada ruim onde afirmava que “comeria a Wanessa Camargo e o bebê”, em uma alusão ao fato da cantora moça ser “gostosa” mesmo grávida.

Não vi graça na piada, pode ser que eu não a entendi ou é ruim mesmo, porém, de qualquer forma, outra caça as bruxas começou, com direito a capa da Veja São Paulo nominar Rafinha Bastos como o “novo rei da baixaria”.

Ok, eu sei que os mesmos reis estúpidos que matavam os mensageiros, também matavam os bobos da corte quando não eram engraçados, mas acho que já passamos dessa fase, não é?

Não estou aqui fazendo uma defesa ao comediante, até porque acho que ele não precisa que o defendam, porém o que quero é fazer um alerta para a sociedade: estamos no caminho da mediocridade.

Ao optar por calar a voz do diferente, através de movimentações raivosas, não mudamos nada, não construímos uma sociedade mais equilibrada e justa, apenas mantemos acorrentados os pensamentos da população que, em algum momento, enquanto os “vigilantes” estiverem dormindo, se manifestarão de alguma forma.

Penso completamente diferente da maioria que aponta o dedo para os “hereges” e dizem que o caminho da salvação é a fogueira.

Em minha opinião, Jair Bolsonaro e Mayara Petruso e muitos outros apenas mostraram que ainda temos que trabalhar na educação e conscientização.

Enquanto Ed Motta e Rafinha Bastos mostraram que a sociedade não está pronta para encarar o seu próprio reflexo.

O ser humano é sim, preconceituoso, politicamente incorreto, sarcástico, ignorante e tudo mais que você puder pensar. Aliás, é o fato de você poder pensar que também nos possibilita trabalhar melhor para reduzir as divergências.

Liberte-se do Bolsonaro que existe em você. Pare de enxergar o comportamento que você não gosta em si, nos outros. Tenha menos medo e, consequentemente, menos raiva. Construa pontes e portas ao invés de erguer muros. Resumindo: não seja mais um babaca.

Até mais!

Ps. Conheci pessoalmente o Rafinha Bastos há cerca de um ano, estive com ele em três ocasiões distintas: uma nos bastidores do CQC, outra após seu show no Comedians e a última em um café. Em todas as vezes tive uma excelente percepção dele. Arrisco a dizer que, em comportamento, perto de mim ele é uma moça, um sujeito muito educado e gentil.

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