Leonardo é Leonardo e você é só você

Na semana que passou a mídia passou a nos ofertar a cobertura de um fato que mudou o mundo: o acidente automobilístico de Pedro, filho do cantor Leonardo, aquele mesmo que antes cantava em dupla com irmão e que fez muito sucesso com dezenas de músicas, a maior parte nos anos 90.

Não sou muito bom de contas, mas pelo que contei por alto, Leonardo vendeu mais de 30 milhões de discos, acredito ser um dos recordistas de vendagem no Brasil. Nada mal para alguém que saiu de uma pequena cidade chamada Goianápolis (cerca de dez mil habitantes) no estado de Goiás, onde plantava tomates com a família.

Muito bem, mas o que é que você tem a ver com isso? É exatamente esse o ponto que quero abrir para debate. O que eu, você e o mundo têm a ver com o sucesso do excelente cantor de música sertaneja?

Só posso falar por mim, e afirmo: nada. Mesmo escutando suas músicas, nunca comprei um disco, fui a um show ou tive qualquer tipo de contribuição na vida de Leonardo. O contrário também é recíproco. Em nenhum momento criei algum tipo de dívida ou deixei qualquer pendência com o cantor.

Transferência para hospital “referência”

Na última quinta-feira ou quarta-feira, não me recordo bem, um fato que passou batido para a maior parte da população me chamou a atenção. Ao que me consta, o rapaz acidentado precisou ser transferido para um hospital em São Paulo, o Sírio-Libanês foi escolhido.

Noto que ser internado no Sírio-Libanês vem se tornando uma espécie de grife na saúde, grandes políticos e personalidades vão para lá em caso de necessidade de tratamento, apesar de São Paulo abrigar outros grandes hospitais de qualidade similar como o H-cor e o Albert Einstein.

Localização e vias de acesso

O Sírio fica próximo ao centro da cidade, assim como o H-cor, já o Einstein fica no bairro do Morumbi, na zona sul, onde também fica o aeroporto de Congonhas, onde Pedro desembarcou. A distância para os dois hospitais é praticamente a mesma, cerca de 12 quilômetros.

As vias de acesso é que mudam muito, o caminho Congonhas-Sírio passa pela avenida 23 de Maio, uma das maiores e mais movimentadas avenidas de São Paulo (mais de 14 mil carros por hora), responsável pelo tráfego do corredor norte-sul da cidade. Já Congonhas-Einsten tem a avenida Água Espraiada, uma via mais nova menos utilizada, com cerca de 7 mil carros por hora em horários de pico.

Apesar de ter outro hospital do mesmo nível e com o caminho muito mais facilitado, o Sírio-Libanês foi o escolhido pela família. Ao meu ver, até aí, problema nenhum, direito de quem decide o que é melhor para os seus.

Quem pode parar o trânsito de São Paulo?

A questão que me fez refletir deu-se na transferência de Pedro. Se eu, você e qualquer outra pessoa que não o prefeito, o governador, o presidente da república ou outro chefe de estado, precisássemos de uma transferência, fatalmente aguardaríamos uma ambulância e enfrentaríamos o trânsito caótico da cidade.

O trânsito, até o momento, era indiferente às nossas necessidades, não interessava quem, rico ou pobre, bonito ou feio, todos nessa cidade maluca, precisavam lidar com ele.

Algo mudou. Não para nós.

Em horário normal, a avenida 23 de Maio foi interditada para que Pedro chegasse ao hospital, se não me engano batedores da polícia acompanharam a transferência. Tratamento digno, impecável, distinto e também imoral, antiético, surreal e irresponsável.

Privilégio e igualdade

Ao ter tratamento diferenciado, sem que tivesse feito algo que o justificasse, simplesmente por ser filho de quem é, Pedro contou com uma prerrogativa que o diferenciou dos demais, lhe deu uma oportunidade que é negada para quase todos que precisam de socorro. O nome disso é privilégio!

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Também na mesma semana foi aprovado, pelo STF, a política de cotas raciais para universidades públicas, algo para corrigir supostos privilégios que foram dados por distorções sociais que ocorreram.

Embora as duas situações não estejam diretamente relacionadas, achei interessante a luta do poder judiciário para promover uma sociedade mais justa enquanto outras injustiças passam na televisão e nenhum promotor toma providência.

Se você é fã do Leonardo não perca seu tempo me atacando no espaço de comentários do blog, o que estou escrevendo não é pessoal, um ataque a ele. Sou favorável a igualdade. Há um ditado que gosto de usar que ilustra bem o problema: “pau que bate em Chico, também deve bater em Francisco”.

Imagino que quem já precisou transportar alguém em uma ambulância ou chegar ao hospital em seu carro deve entender o ponto que estou tocando. Por que alguém merece mais chances do que as demais? É essa a sociedade que desejamos construir?

Certa vez fui multado por colocar o carro em cima da faixa de pedestres para dar espaço para uma ambulância passar. Fico pensando no que aconteceria comigo por fazer algo parecido e no tamanho do problema que me meteria para tentar salvar a vida de alguém que gosto.

Até mais!

PS. Sobre cotas raciais escrevo outro dia, qualquer instrumento de equilíbrio é bem vindo, desde que com contrapartidas.

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