Wikipedia, a enciclopédia livre, menos no Brasil

Wikipedia, a enciclopédia livre, menos no Brasil

Caro Urso, sei que o assunto foge um pouco dos assuntos que você costuma abordar por aqui. Mas, como sou um cara muito bem resolvido em assuntos de caráter amoroso-sexual, prefiro aproveitar este espaço para fazer uma pergunta relacionada à área de mídias digitais, nas quais você trabalha nas horas vagas entre suas sessões de aconselhamentos sentimentais. É o seguinte, Urso: qual a sua opinião sobre a Wikipedia em português? Vimos recentemente toda a novela mexicana que rolou em torno da aprovação ou não do verbete dedicado ao Daniel Pádua, um dos nomes mais atuantes da internet brasileira desde os seus primórdios, e que trouxe à tona, mais uma vez, a falsa democracia dos moderadores da Wikipedia em PT (que, segundo o Juliano Spyer, têm “mentalidade colonialista”). Não à toa, o número de colaboradores da Wikipedia está caindo. Como eu sei que o senhor não tem KY na língua, solte a voz e diga pra gente o que você acha de tudo isso. Aquelabraço, Inagaki.

Olá grande Inagaki, o japonês mais brasileiro que conheço, é um prazer inenarrável ter uma pergunta aqui no P.a.U., sabia que cedo ou tarde você acabaria fazendo daqui um lugar para ter seus anseios respondidos! Brincadeiras a parte, os demais leitores não estão acostumados a ler algo diferente por aqui e espero que se encorajem a fazê-lo dessa vez, pois é legal conhecer pontos de vista que não sejam somente sobre relacionamento e sexo. Wikipedia é uma casa de marimbondos e a patada vai rolar solta hoje.

Enciclopédia livre?

Muita gente não faz a menor idéia do que a Wikipedia seja, não se deu conta do que realmente ela é ou do que deveria ser, portanto, explicarei. Quando procuramos “Wikipedia” no Google o resultado da versão original traz um subtítulo “Wikipedia, the free encyclopedia that anyone can edit.”, que traduzindo para o português seria “Wikipedia, a enciclopédia livre que qualquer pode editar.”.

Você deve estar pensando “nossa, que legal, uma enciclopédia colaborativa, de graça e ao meu alcance!”… E você está certo!

A Wikipedia foi criada em 2001 com o intuito de democratizar o conhecimento através da contribuição de todos, com a finalidade de abranger o máximo de conhecimento possível. Os usuários podem escrever ou alterar artigos sem pagar nada por isso, fazendo-o de forma anônima, sob pseudônimo ou usando seu próprio nome. Obviamente toda colaboração deve seguir uma política de uso, mas é fato que, teoricamente, até a sua avó ou seu sobrinho poderiam incluir informações.

Sei que poucos terão interesse em continuar lendo, o que é uma pena, o texto de hoje fala sobre a liberdade de pensamento e moderação arbitrária, sendo muito mais uma questão social do que propriamente dita digital. Caso ampliar o conhecimento esteja em suas prioridades, recomendo o restante da leitura e o debate do tema nos comentários. Ah, provavelmente serei massacrado nos comentários por puristas da web, mas até aí… Fodam-se! “Vem vamos embora, que esperar não é saber…”.

Navegar é preciso, moderar não é preciso

O problema, caros leitores, está em como organizar um volume monstruoso de conteúdo crescente e proveniente de tantas pessoas diferentes. É de se esperar que pessoas mal intencionadas entrem apenas para bagunçar artigos ou escrever abobrinhas, mas não há motivo para pânico, a Wikipedia foi desenvolvida de uma maneira a desfazer alterações com muita facilidade. E quem tem o poder de dizer o que está certo e o que está errado em uma enciclopédia livre?

É aí que está a pergunta do milhão de dólares. Sabemos que em toda organização sempre há alguém que manda, e claro, alguém que obedece porque tem juízo. No time de futebol manda o presidente do clube, na delegacia manda o delegado, no Brasil deveria mandar o presidente da república (não contem isso para ela) e na Wiki mandam os moderadores.

Ok, todo sistema precisa de moderação senão vira zona mesmo, é normal! Aliás, se até na zona (puteiro) existe alguém que toma conta da putaiada, por que não haveria nesse ambiente digital?

Na monarquia os reis eram os maiorais e, reza a lenda, eram indicados diretamente por Deus. Ele mesmo, no alto da sua onipotência, onisciência e onipresença, dava aos fiéis súditos um tostão de sua benevolência e indicava quem iria explorá-los para custear o modo de vida dos nobres!

Na Wiki não é muito diferente, mas ao invés de caráter monoteísta temos em nossa versão lusa e na tupiniquim um modelo politeísta, sendo um grupo de contribuidores, responsável pela chave do céu.

Se você me perguntasse quem fez Deus, eu não saberia dizer, mas eu sei quem fez os moderadores… Eles não foram escolhidos, mas se uniram, assim como em filmes de mafiosos, fecharam um grupo e passaram a se automoderar. Quando há algum conflito a questão é colocada em uma espécie de eleição, coisa super democrática, mas apenas usuários que editaram pelo menos 100 artigos e tem seus registros há mais de 45 dias podem votar.

Parcialidade, superficialidade e ditadura

Acho muito curioso o ponto de vista dos deuses da Wikipédia em português. Vou dar um exemplo: se procurarmos dentro dela por agências de publicidade, acharemos facilmente a Fnazca e outras conhecidas, porém se eu tentar colocar o verbete da agência de algum amigo, fatalmente tudo que eu escrevesse seria apagado.

Só posso crer que há algum critério de relevância para tal vandalismo, daí me pergunto: quem define o quão relevante algo é e quais os critérios utilizados? Mas, vamos pegar um caso concreto que explica o quão falho é esse sistema.

Um grupo de antropólogos da USP, após décadas de estudos, artigos e livros publicados sobre as tribos Tupis e Tapuias no litoral paulista, desenvolveu quinze artigos iniciais, contendo informações com referências bibliográficas. Publicaram o conteúdo na Wiki e após 24 horas todo o material havia sido suspenso. Ao entrar em contado com os moderadores responsáveis pela censura tiveram uma resposta oficial: “Nunca ouvimos falar sobre isso”.

Após publicarem novamente os artigos, com ainda mais informações e documentos escaneados, o conteúdo foi classificado como “suspeito” e posto em votação. Sete dias depois tudo foi apagado e os editores bloqueados. Um especialista da wiki justificou: “O que não existe no Google não existe no mundo”.

Como você pode notar, amigo Inagaki, o buraco é mais embaixo. Os moderadores precisam ser especialistas em todos os assuntos, porque se não forem, é melhor apagar tudo. É uma lógica estúpida e estapafúrdia, se não sei do que se trata, sumo com a informação, voltamos a inquisição.

Os “cinco pilares” da Wikipédia

Vamos entrar no covil dos lobos e falar sobre os cinco pilares do sistema descritos na própria Wiki:

1 – A Wikipédia é uma enciclopédia

Dentro desse item há uma série de explicações deixando claro que experiências e interesses pessoais devem ser deixados de lado. Isso é paradoxal, se o sujeito se interessa e tem conhecimento sobre o caso ele não pode publicar, mas se desconhece como no caso que citei, pode apagar!

2 – A Wikipédia rege-se pela imparcialidade

O que é ser imparcial? A partir do momento em que você decide que o blog Pergunte ao Urso não pode estar como verbete, mas o blog Kibe Loco pode, a parcialidade imperou (nada contra o Kibe). Já viu algum ser humano ter um julgamento completamente imparcial? Ah, desculpe, os moderadores são deuses…

3 – A Wikipédia é uma enciclopédia de conteúdo livre que qualquer um pode editar

Essa afirmação chega a ser ridícula diante dos fatos que tomei conhecimento. Mas, se você quiser tentar a sorte…

4 – A Wikipédia possui normas de conduta.

As normas de conduta são muito claras, pregam respeito aos outros editores e falam sobre agir de forma civilizada. Pergunto: sumir com conteúdo publicado por um autor parece uma forma civilizada?

5 – A Wikipédia não possui regras fixas

Agora sim, não entendo mais porra nenhuma. Se essa joça não possui regras fixas, que cazzo são essas que acabei de listar?

Resumo: falta de controle inteligente

Isso quer dizer que a ferramenta é uma merda? Não. Quer dizer que é uma ferramenta muito legal, mas está sendo controlada por pessoas que não deveriam. Em uma enquete que fiz no meu twitter isso ficou evidente, 66% dos internautas que conhecem a Wikipédia concordam com esse ponto de vista.

Pessoalmente acredito que a Wikipedia não deve ser levada como verdade absoluta, aliás, como todas as enciclopédias. Elas devem apenas ser pontos de partida para o conhecimento particular sobre determinado assunto.

Não nos esqueçamos nunca, a história é escrita pelos vencedores! Espero ter dado meu ponto de vista a contento.

Grande abraço Ina, volte sempre que quiser ao P.a.U.!

Obs. Inagaki escreve o blog Pensar Enlouquece, mas mesmo que não escrevesse nada, seria um cara diferenciado da mesma forma. Assim como Juliano Spyer e o finado Daniel Pádua. Poucos são os caras na internet que realmente produzem algo de diferente, a maioria copia e cola idéias, se prendem a dogmas e seguem tendências sem contestá-las. Bora revolucionar! Esse ano participei do Campus Party criticando exatamente esse ostracismo, se quiser assistir é só clicar aqui.

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