Amor do interior não resiste ao chamado do pecado capital
Olá Urso, leio seu blog desde quando ele começou e agora estou desesperada com um problema e gostaria que você me ajudasse. Meu filho mais velho, de 32 anos, resolveu se casar com uma moça que conheceu em uma viagem à Pernambuco. Ele quer trazer a moça para morar em São Paulo. Já disse a ele que isso não dará certo, pois ela é quase 14 anos mais nova que ele e nunca esteve aqui. Estou errada? Claudete
Olá Claudete, belo enrosco esse que você se meteu. Estou tentando ver um lado bom, mas está complicado. Já vi esse filme várias vezes e acho que quase todo mundo também já viu, onde o rapaz insiste em trazer alguém de fora e com pouca experiência para uma cidade grande e as coisas não deram muito certo. Para deixar mais dramático o seu caso, há ainda uma bela diferença de idade.
Falando nela, quando li a idade do seu filho confesso que achei estranho alguém que já deveria ter uma certa experiência fazendo merda como se fosse adolescente.
Não posso afirmar com 100% de certeza de que o casamento dará errado, até porque se conseguisse não estaria aqui respondendo a perguntas, mas sim apostando em corridas de cavalos em algum Jóquei Clube por aí. Contudo, é quase certo que ele terá problemas.
Diferenças e o prazo de validade
Casamento já não é uma sociedade fácil de administrar e manter, mas com essas diferenças sócio-culturais acredito ser muito mais complicado.
Tirar a moça do convívio da família dela é um problema que nenhum homem, minimamente inteligente, faria. Basta pensar um pouco e ver que, na ausência de conhecidos e familiares, toda a vida da pessoa giraria em torno do sujeito.
Quem consegue realizar todos os papeis sociais durante muito tempo? Ser pai, irmão, amigo e marido não é moleza, muito menos é saudável. É muita pressão.
E quando ela cansar e quiser conhecer o mundo, será que ele entenderá? Não boto muita fé. Acho que o sujeito só consegue admitir sendo muito frouxo ou muito consciente da escolha que fez.
Mesmo assim, com tudo contra, também vi relações nesses moldes durarem muito tempo… Pensando bem, não vi não! As que vi tiveram a mesma validade de um iogurte.
Sei que vai parecer extremista, mas prefiro escrever à me omitir, casar com uma moça nas circunstâncias que você descreveu é mais arriscado, emocionalmente falando, do que casar com uma garota de programa. Pelo menos a segunda conhece mais da vida e o risco de fazer merda seria menor.
Certa vez fui vizinho de um gaúcho de aproximadamente 35 anos, casado com uma mocinha de uns 18. Ele trouxe ela do interior do Rio Grande do Sul para São Paulo. É impressionante a crueldade da vida quando ela resolve ser irônica. O sujeito tinha mais chifres que um alce. Qual era a profissão dele? Garçom de churrascaria! Como se não bastasse servir carne dia e noite, fazia a alegria da rapaziada enquanto trabalhava. Mais cruel impossível!
O dilema das sogras
O maior problema, cara Claudete, é que, mesmo você estando certa, fatalmente suas opiniões não contarão muito, afinal de contas, você é a sogra. Sogra nunca tem razão!
Sempre escuto falar sobre sogras ótimas, maravilhosas, mas acho que isso é mais alguma lenda urbana… Não é que sogras sejam ruins, é que mesmo as boas, ainda assim são sogras. É da natureza se meter na vida do casal palpitando quando não deve, então quando alguma tem razão acaba sendo ignorada.
O pecado da capital
Alguns leitores podem estar se perguntando o que estou vendo de tão errado nessa união, e é uma pena que isso aqui é um blog, senão eu demonstrava com laranjas para quem ficou pensativo.
Pensem comigo, como está impactada a vida de uma garota que mora em uma cidade pequena, interiorana, que nunca saiu de sua região? Agora tirem a mesma garota e a enfiem em uma metrópole como São Paulo e imaginem uma adaptação.
Um mundo de oportunidades irá se abrir. Lugares, atividades, pessoas, tudo novo, borbulhante e interessante, pelo menos, no ponto de vista da moça.
Eu trocaria São Paulo pela vida em uma cidade menor de olhos fechados, a coisa que mais gosto na capital em que eu nasci é a diversidade gastronômica, mas o caos não compensa.
Voltando ao caso da moça, já ficou claro que é um desastre anunciado ou precisarei desenhar?
Como fazê-lo entender? Diálogo
Muito bem, Claudete, que você está certa não há dúvidas, mas fazer o pato do seu filho entender isso é outro problema. Sinceramente, não acho possível mudar a cabeça de alguém que está apaixonado através de razões lógicas.
Acho importante que você deixe claro sua visão, tentando fazer isso no mesmo tom de voz (sem gritar), de uma forma muito direta, sem ficar rodeando. Jesus falava por parábolas, mas acredito que não é o seu caso.
Em seu lugar falaria algo como “Senta aqui, filho. Sou sua mãe, sempre quis o teu bem e agora não será diferente. Quero conversar sobre as preocupações que tenho a respeito do seu futuro e gostaria que você me escutasse.”.
É importante desarmar a pessoa primeiro, mostrando os papeis de cada um e o seu interesse com aquela conversa.
Logo depois falaria algo como “Como mãe sou suspeita para falar algo sobre uma futura nora, mas o que quero lhe passar tem mais a ver com o casamento do que com a moça. Sua relação tem data de validade de um iogurte e você é um puta de um babaca candidato a corno do ano, pronto, falei!”.
Ok, retire o que escrevi após o “moça”, será melhor substituir por “Trazer alguém de uma cidade pequena para morar aqui não costuma dar certo e gostaria que você tivesse consciência disso. Não acredito que você será feliz assim, mas vou te apoiar e estar presente caso tudo dê errado. Só te peço que reflita a respeito.”.
Boa sorte! Até mais.
Ps. Conhece alguém nessa situação? Dá um curtir ou publica no twitter. Quem sabe a pessoa não lê e se toca?
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